“Há vidas do lado de lá”

Child in hospital

Era manhã de uma segunda-feira, sentada em frente ao maior hospital da região em que resido, eu sentia aquela mesma sensação que há semanas estava sentindo. Por não me habituar ao ambiente de hospital, e principalmente UTI, todo domingo a noite após terminar o culto eu pensava: “Poxa, amanhã preciso ir àquele hospital de novo”.

Na maioria das vezes ficava ouvindo música ou lendo a bíblia no celular enquanto esperava pela colega de estágio e a preceptora que nos supervisiona. Pouco tempo depois elas chegaram e subimos para a enfermaria. Eu sempre costumava caminhar pelas rampas falando com Deus e perguntando: “Será que vou me impressionar com mais alguma coisa hoje? Quem será a pessoa que vou precisar intervir?”

Quando chegamos no posto II fui encaminhada pra enfermaria feminina e o leito 61 esperava por mim. Já havia anotado as informações que precisava, pois o prontuário estava repleto de exames e relatos. Lembro que no leito ao lado estava uma mulher de pele negra, muito ferida e suja de sangue, com seus lábios estourados e na plaquinha de identificação estava escrito por siglas que ela havia sido estuprada e esfaqueada. Fiquei alguns segundos olhando fixamente pra ela, refletindo…

Me voltei pra o leito 61 e lá estava a (minha) paciente, de olhos fechados, com fixadores externos no antebraço direito (mais conhecidos como gaiolas ou ferros) e sendo hidratada através do soro na veia. Por ela estar dormindo fui até a preceptora e perguntei o que deveria fazer, afinal ela deveria estar ainda por efeito de anestesia, e fui orientada a acordá-la.

Calcei as luvas, toquei em seu ombro e chamei por seu nome. Seus olhos foram abertos. Aquele olhar mostrava querer entender onde estava, e talvez tentava lembrar o que tinha acontecido. Imediatamente, de forma desesperada ela me pediu água, pois havia passado por uma cirurgia, onde balas precisaram ser retiradas de seu abdômem, e a anestesia lhe causou muita sede. O máximo que eu poderia fazer era molhar um algodão e tocar seus lábios já ressecados. Mesmo assim não fui permitida pois fui informada de que ela havia saído da sala de cirurgia há poucas horas.

Enquanto ainda tentava me apresentar, o médico cirurgião chegou, perguntou a enfermeira quem era a paciente, logo ele se lembrou e perguntou: “E aí, ta sentindo dor?” Temerosa, ela respondeu que não. Ele retirou o lençol que era a única coisa que lhe recobria, apertou com firmeza seu abdômen, e antes que desse tempo de perguntar de novo, ela gritou desesperadamente, enquanto tentava se proteger dos olhares das dezenas de pessoas que ocupavam aquele lugar.

Depois desta cena, nada mais poderia ser feito, ela não aguentava tanta dor, e a fisioterapia não poderia intervir. Eu havia sido a primeira pessoa a qual ela havia conversado ou quem sabe visto, após ser submetida a cirurgia. Perguntei por algum acompanhante e ela respondeu que até o SAMU levá-la para o hospital a sua mãe a acompanhara. Nesse momento, sem que eu perguntasse mais nada, ela começou a me contar o que havia acontecido:

“Era mais de 11 da noite e eu estava esperando um moto taxi passar. Lá na minha cidade eu saio essa hora mesmo. Um cara parou e perguntou por quanto eu faria um programa, e eu disse a ele que eu não era prostituta, mas ele não queria saber, queria a todo custo saber meu preço. Me xingou e eu corri, foi quando ele atirou e eu caí”

Logo fiquei impressionada, mas lembrei do que nós, estudantes da área de saúde, somos ensinados. Sabemos que a maioria das histórias que nos contam não são verdade, porque querem esconder a existência da violência doméstica ou histórias em que o motivo de estar ali foi culpa sua. Mas até aí tudo bem porque não importava a causa, mas sim o tempo que eu tinha pra falar com ela antes que a preceptora voltasse da supervisão da colega e me mandasse ir pra outro leito.

Dentre uma curta e proveitosa conversa, questionei sobre qual a sensação de acordar viva, se ela tinha noção da misericórdia de Deus, de Seus planos e promessas pra vida dela. Em lágrimas, disse que achava que não ia acordar, e naquele dia se sentia mais próxima de Deus, porque sabia que estar viva era um milagre. Disse que precisava viver porque seu irmão havia morrido atropelado há 9 meses e sua mãe não aguentaria tanta dor.

Enquanto observava se a preceptora havia voltado, falei do amor de Deus e naquele momento me questionei se seria a hora de perguntar se ela desejava entregar sua vida a Cristo, e ver sua vida transformada após ter vivido um milagre como esse. Nesse momento percebi que alguém se aproximava de mim, e olhei para o lado. De braços cruzados a preceptora perguntou se estava tudo ok, eu disse que sim, e ela disse: “vamos sair?” Sem querer questioná-la, nem “desobedecer as ordens” eu disse que já iria. Ainda na sua frente falei a paciente que talvez nos próximos dias, se ela ainda não estivesse ido pra casa, eu iria passar lá pra vê-la, e estaria orando por ela. Chorando, ela agradeceu.

A semana foi se passando e aquela mulher não saía dos meus pensamentos nem das minhas orações. Eu esperava ansiosa pela quarta-feira que iria vê-la novamente, e quem sabe poder continuar nossa conversa. Mas como já esperava não fui a escolhida para tratá-la. Minha colega que havia sido encaminhada pra cuidar dela, voltou e me disse: “Com aquela paciente não pode ser feito nada, ela está muito mal”.

Fiquei apreensiva, agilizei o atendimento do rapaz que eu intervia e assim que finalizei fui até lá. Ela estava muito cansada, e com o auxílio do oxigênio, quando me viu já me perguntou porque estava daquela forma, e o por que que ela não estava melhorando. Tentei acalmá-la e fui até a preceptora, que também se surpreendeu. Fomos avaliar seus novos exames, e, realmente, inesperadamente seu pulmão estava comprometido e ela estava piorando.

Pouco tempo depois fomos realizar os atendimentos da UTI e enquanto atendia pacientes mais críticos, Deus me fazia lembrar novamente dela. Daquela forma intensa, que sabemos que nada mais é que o Espírito Santo nos lembrando de orar, interceder. É uma mistura de sensações, porque entendemos o que ele está pedindo que façamos, mas ao mesmo tempo nos preocupamos porque sabemos que algo mais sério está acontecendo naquela hora.

Finalmente mais um dia naquele hospital havia acabado. Lavei as mãos, abri a porta da UTI, e uma mão toca meu ombro, era a preceptora:

– Laís, sabe aquela paciente do leito 61? – Disse ela.

– O que foi? – Indaguei.

– Recebi a informação de que ela teve uma parada cardiorrespiratória de 8 minutos – Respondeu.

– E aí, cadê ela? – Perguntei.

– Está na sala vermelha esperando uma vaga na UTI – Respondeu.

Esperar pela próxima segunda feira parecia uma eternidade, o que antes era tortura, dessa vez eu não via a hora de chegar. Que dias longos… eu só pensava em terminar aquela conversa.

Finalmente a segunda-feira chegou, e lá estava eu, sentada, em frente ao hospital, olhando para as janelas e desejando encontrá-la. Ao ver a preceptora eu tentei não perguntar logo de cara, mas não demorou muito, até que ouvi: “Ela morreu”. Eu não sabia nem o que pensar, sentir… Lamentei. De imediato fiquei com raiva de mim mesma, porque não terminei aquela conversa da forma que gostaria. Ao mesmo tempo queria me justificar, afinal ela parecia ter um bom prognóstico e ela não iria falecer tão cedo assim. Mas então porque só insistir quando parecer que o fim está próximo? Como vamos saber se está próximo?

E os outros pacientes que tiveram um bom prognóstico e saíram logo dali, falei a eles do amor de Deus? Será que eu poderia fazer isso? Será que comprometeria minha nota de estágio ou ética profissional? Será que temos que nos importar com isso, e aproveitar toda e qualquer situação pra falar do amor de Deus? Foi negligência? Ou ainda assim, fiz minha parte? Aliás, qual a diferença entre aquela mulher que pra medicina estaria logo de volta em casa, e alguém que no nosso dia-a-dia trocamos algumas palavras e dali em diante nunca mais veremos de novo? Você sabe se ela morreu em poucas horas? Como saber se você foi a última pessoa que alguém conversou e quem sabe teve a última oportunidade de ser evangelizada?

Passei dias refletindo. Tentei não ficar triste. Por alguns momentos estive revoltada comigo mesma, mas logo Deus falou comigo e pude então passar a lembrar de tudo isso de forma mais tranquila. Essa foi uma das histórias que vivenciei justamente no hospital que temia estagiar, mas que com o passar das semanas experiências como essas me fizeram querer cada vez mais subir aquelas rampas, e quando sentada lá fora eu pensava: “Há vidas do lado de lá”.

Por Laís Barros

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5 pensamentos sobre ““Há vidas do lado de lá”

  1. Amém!! Sem dúvida você leva a presença do Senhor e vidas são impactadas e recebem o amor de Deus através de sua vida! Que o mundo receba essa amor !!
    Fui extremamente abençoada!! Que o Senhor te abençoe e te conceda muitas experiências e que nós leitores possamos ser impactados!

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  2. Amem !!!

    Ainda refletindo desde do dia que soube desse caso, e me sentindo cada vez mas impactada com cada pessoa que é levada de repente, É TEMPO DE FRUTIFICAR ,vemos nesse texto a realidade da fragilidade de um ser humano ,fatos totalmente reais que nos faz ser mais humanos e automaticamente derramar mais amor por vidas!
    Benção de Deus Lais.

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